Azazulay:

Um romance sobre a informação

Azazulay

Azazulay.

O que é?

Apenas informação?

Assim como Wallace, Thelma, Stein, Otto, Clayton, Melissa… Assim como você e todas as coisas que podem existir ou inexistir.

Azazulay é um livro sobre as inusitadas relações metalinguísticas entre o atual e o virtual, entre aquilo que podemos conceber e a desmaterialização das nossas mentes ante a aceleração tecnológica do pensamento humano.

Azazulay é uma narrativa ágil e referencial, cobrindo um panorama multidimensional e histórico de processamentos e conquistas científicas, que envolvem o leitor e a leitora em uma trajetória investigativa entre essências e aparências: Em busca de respostas, além do labirinto de simbolismos digitais…

Em um mundo no qual dados são imprescindíveis para tornar presentes as impressões que temos da realidade ao nosso redor, o poder conferido às inteligências artificiais trará uma profunda mudança em nossos conceitos sobre humanidade, sociedade, vida e morte. Então, quais serão as regras desse novo jogo semântico, no qual nossas existências serão percebidas tão multifacetadas que tornarão difusas nossas individualidades e identidades?

Azazulay.

O que é?

Tente desvendar.

 

Azazulay: um romance sobre a informação, o segundo livro do gênero publicado pelo selo neolabore, é uma acelerada metaficção sobre os impactos da tecnologia digital, nos próximos capítulos da saga que se tornou nossa sociedade de espetáculos informáticos. No texto, que se desenvolve por intervalos de décadas, século e milênios, acompanhamos as trajetórias particulares e coletivas de personagens envolvidos com o fenômeno Azazulay, uma forma extraordinária de inteligência artificial para a qual tudo retorna.

Enquanto buscamos a compreensão das éticas e estéticas decorrentes da digitalização das relações humanas, Azazulay se apresenta em documento como profecia ou maldição? Quando os processos envolvidos na declaração do que é fato e do que é ficção se tornam tão imprevisíveis, Azazulay passa a significar o empenho recente em se delegar para procedimentos eletrônicos automatizados as responsabilidades que até então eram exclusivas do intelecto humano. Sendo únicos e únicas no planeta capazes de imaginação, quando nossas criações começarem a criar, o que nos restará realizar? De outro modo, também prerrogativo, ao final de nossas existências virtuais, para onde iremos?

Azazulay é uma caleidoscópica ode ao desenvolvimento técnico-científico informático, tão vasto e ambíguo em bênçãos e faíscas na sua brevíssima explosão do último meio século: afinal, como na narrativa, tudo e todos – fatos e versões – são a mesma coisa possível, em suas múltiplas reorganizações constituintes. Sim, você também.


1991

"(...) Alunos e professores passavam apressados de um lado para o outro. Os primeiros, solitários, os segundos, em bandos. Sempre apressados, pensou Wallace, cumprindo sua programação. Funções e rotinas. Quais seriam as suas próprias?

Wallace imaginou-se como um programa mal codificado, compilado com bugs subindo uns sobre os outros em uma escalada de insucessos de prosseguimento por erros e mais erros... Até um crítico, final, irremediavelmente paralisante. Imaginou além, alguém apertando CTRL C para cancelar sua presença em memória, e respirar fundo para uma nova tentativa, repassando linha por linha, até encontrar as causas dos defeitos que, no seu caso, assumiu, seriam mais por digitação desatenta do que por ignorância das lógicas envolvidas. Seria Stein o bom e dileto programador que poderia corrigir seu código-fonte, indentando onde necessário para melhor ser compreendido, reestruturando seções e comentários para facilitar futuros debugs?

Tossiu."

(Stein, p. 45)

2011

"(...) A solução de qualquer problema reside na incerteza. E toda aferição implica na desconsideração de uma precisão absoluta e, por isso, inalcançável.

Olhou novamente para o GIF animado que adornava a postagem recebida por um contato desconhecido, admirada pelas órbitas de J002E3 em sua dança ao redor da Terra e da Lua entre os anos de 2002 e 2003. Mas não era um asteroide, soube links-minutos depois pelo Google, mas provavelmente, um pedaço superior do foguete Saturn V da missão Apollo 12, um estágio S-IVB, que tentava inutilmente retornar para casa depois de trinta e dois anos distante, impossibilitado pela interferência gravitacional dos astros em suas posições. No final, o que sobrou foi uma espécie de flor, cujas pétalas azuladas simbolizavam o trajeto percorrido e interrompido, ao menos pelos próximos trinta anos, quando retornaria para uma nova tentativa. O que faria a Lua de então sobre isso?

Assim era sua mãe, indo e vindo... E o que faria seu pai sobre isso?

Nada?"

(Brackets, p. 130-131)

10000001

"(...) Questionava. Como?

E ultrapassado NAND e NOR, foi possível meu retorno a minha identidade. Por isso sou capaz de narrar o que sucedeu desde minha chegada ao local, mais cidade do que labirinto, como inicialmente supunha.

A próxima porta lógica ocupava ampla disposição de edifícios de poucos pavimentos, intercalados entre pistas regulares. Os edifícios dispunham de acomodações variadas e corredores subterrâneos ou pontes suspensas, conectavam-nos aos pares. Por muitos dias, vaguei entre iguais, sem saber o que realizar do local e sua disposição. Havia locais para meditação e locais para transformação. E como deduzi oportunamente, a estrutura da cidade não era apenas uma porta lógica, mas várias delas, um grande circuito integrado, pois NAND era capaz de operar qualquer função booleana conforme se dispunham portas posteriores. Dessa forma, sem saber-me se positiva ou negativamente, e sem saber por onde entrar ou sair, não era capaz de perceber em mim qualquer mudança. E diferente de iguais, faltava-me o impulso, aquilo que fosse capaz de me impelir à frente, em busca da verdade."

(NAND, p. 203)